Video: O ministro André Mendonca fez a egípcia: AS 96 MENSAGENS ENTRE FLÁVIO E VORCARO, 90 DIAS ANTES DA PRISÃO
PN - Onze meses decorreram entre a primeira e a última tentativa de Flávio Bolsonaro de falar com Daniel Vorcaro, segundo mensagens registradas no celular do banqueiro.
O primeiro contato ocorreu às 22h10 do dia 16 de dezembro de 2024, por iniciativa do senador. Quase um ano depois, em 16 de novembro de 2025, às 15h46, Flávio Bolsonaro escreveu a última mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!” Referia-se aos dólares que vinha recebendo do banqueiro. No dia seguinte a essa mensagem, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal.
A extração de informações e documentos do celular de Vorcaro feita pela PF, e obtida com exclusividade pela piauí, permite reconstituir essa relação de ponta a ponta. O diálogo entre os dois tem 110 registros. São 50 mensagens de Flávio, 46 de Vorcaro e 14 ligações – oito delas atendidas. Entre as mensagens do senador, há cinco fotos e vídeos de visualização única, enviados na semana anterior à prisão do banqueiro, e uma mensagem apagada, em 23 de setembro de 2025.
O conjunto mostra um clima de camaradagem entre os dois, com troca de amabilidades e sondagens. Das mensagens, pode-se depreender que a entre o senador e banqueiro tinha um certo grau de afinidade pessoal (as expressões “irmão”, “irmãozão” e “mermão” aparecem dezesseis vezes), mas se concentrava no âmbito dos interesses mútuos. No caso do banqueiro, era garantir sua influência junto à família Bolsonaro. No caso do senador, era o dinheiro: a intrincada negociação sobre remessa de dinheiro aos Estados Unidos e as insistentes cobranças que o senador fazia para o banqueiro para que liberasse os dólares atrasados.
As conversas se concentram entre agosto e novembro de 2025, mas isso não significa que não tenham existido diálogos nos meses anteriores. É que, após a primeira interação, o recurso de mensagens temporárias foi acionado por Flávio Bolsonaro, e as mensagens eram apagadas depois de 90 dias.
Por isso, não é possível ver as interações de 16 de dezembro de 2024 a 17 de agosto de 2025. Foi nessa janela temporal que Vorcaro depositou 10,6 milhões de dólares com a justificativa de patrocinar a cinebiografia de Jair Bolsonaro – o nome Dark Horse não aparece nas conversas, mas eles se referem ao projeto como “o filme”.
Ainda assim, a partir de diálogos encontrados no celular do banqueiro com outros interlocutores e intermediários de Flávio pode-se concluir que eles mantiveram contato nesse hiato. Era um momento-chave na concepção da candidatura do senador. Flávio Bolsonaro sondava Vorcaro não apenas por meio de terceiros, mas também pessoalmente. Já se sabe que, após a primeira prisão de Vorcaro, já solto e com tornozeleira eletrônica, o banqueiro recebeu Flávio em sua casa, em São Paulo, no dia 4 de dezembro. No dia seguinte, Flávio confirmou a pré-candidatura à Presidência da República.
A relação entre os dois ocorreu ao longo do período de maior vulnerabilidade do banqueiro. Desde o fim de 2023, Vorcaro buscava proteção de autoridades do alto escalão da República, como a cúpula do Congresso e ministros do STF, entre eles Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. Sabedor de seus pecados, o banqueiro buscou blindagem em todos os cantos, como dizem fontes ouvidas pela piauí. “Ele acendeu uma vela para Deus e outra para o diabo”, resume um político que pediu para não ser identificado.
Flávio Bolsonaro escondia sua proximidade com Vorcaro até de aliados importantes da política – um sinal de que ele próprio suspeitava de problemas nessas interações. Depois que o escândalo estourou, em maio deste ano, Flávio mentiu repetidas vezes. Disse que não conversava com Vorcaro e que não havia dinheiro do Master no Dark Horse. Afirmou que o último pagamento para a produção do filme ocorrera em maio de 2025 e que sua visita ao banqueiro depois da prisão foi “para botar um ponto final” nos negócios entre eles. A dureza da expressão “ponto final” usada em público contrasta com a forma amável e cordial com que os diálogos eram conduzidos em privado. Por fim, alegou que nunca havia entrado em um avião de Vorcaro. Em todas as ocasiões, foi desmentido pelos fatos.
A relação fugidia entre o senador e o banqueiro está sob investigação desde julho de 2026 em razão da captação de dinheiro de Vorcaro para o Dark Horse envolvendo uma empresa que, agora se sabe, é investigada por suspeita de lavar dinheiro do PCC. O inquérito apura crimes financeiros nos repasses ao fundo americano Havengate, que recebeu dinheiro enviado a mando de Vorcaro por meio da empresa Entre Investimentos, do doleiro Antônio Freixo Junior, bem como o possível uso desses recursos em finalidades que não eram a cinebiografia de Jair.
Entre 16 de dezembro de 2024 e 20 de agosto de 2025, a conversa entre os dois está em branco. A piauí, no entanto, reconstituiu esse intervalo a partir das mensagens que Vorcaro trocou com outros interlocutores: o empresário Thiago Miranda, então presidente do Portal Leo Dias; o deputado Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura de Jair Bolsonaro; o cunhado e operador financeiro do banqueiro, Fabiano Zettel; e o amigo Flávio Carneiro, que chama o senador Flavio Bolsonaro de “meu xará”.
Nessas conversas, Flávio Bolsonaro aparece marcando reuniões, apresentando aliados, oferecendo acesso ao pai e cobrando o dinheiro prometido para a cinebiografia. Ao longo de onze meses, as conversas registram encontros marcados entre os dois em pelo menos seis ocasiões – de uma reunião na casa de Vorcaro em Brasília, em dezembro de 2024, a um jantar com o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no Dark Horse, na casa do banqueiro em São Paulo, em novembro de 2025.
Uma parte dessas reuniões já foi revelada pelo jornal O Estado de S.Paulo. O único encontro publicamente admitido por Flávio aconteceu depois da prisão, naquela reunião, ocorrida em 4 de dezembro de 2025, na véspera do anúncio da pré-candidatura de Flávio.
Diálogos entre Vorcaro e o publicitário e lobista Thiago Miranda também revelam um desvio na rota do financiamento que suspostamente bancou o filme. Thiago Miranda foi quem intermediou os contatos do banqueiro com Flávio Bolsonaro e os produtores executivos da cinebiografia, Mário Frias e Eduardo Bolsonaro.
Em 16 de dezembro de 2024, Miranda recebeu uma minuta do contrato da parte dos Bolsonaro e encaminhou para Vorcaro. No papel, os 24 milhões de dólares seriam depositados na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment LLC, registrada nos Estados Unidos.
Por alguma razão ainda desconhecida, no entanto, deu-se uma mudança. Em vez de a produtora receber o dinheiro, optou-se por um caminho mais longo e menos convencional. Em janeiro de 2025, os Bolsonaro elegeram um novo destino para os milhões de Vorcaro. Descartaram a conta corrente da produtora e acionaram a conta do Havengate, o fundo imobiliário registrado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto. Essa figura desconhecida no Brasil era não apenas amigo de Eduardo Bolsonaro, mas também responsável por seu processo de imigração. Calixto tinha um parceiro no Havengate: o corretor de imóveis Altieris Santana. Esse fundo foi o caminho do dinheiro que havia sido pedido pessoalmente por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro.
Os investigadores que acompanham o caso, ouvidos sob condição de anonimato, trabalham com a hipótese de que os dólares – ou parte dos dólares – acabaram não sendo usados no patrocínio do filme. Avaliam que toda a operação pode ter sido, na verdade, uma simulação de investimento que permitiria retirar o dinheiro nos Estados Unidos para outros fins. Além disso, os investigadores detectaram indícios do uso de um meio fraudulento de remessa, via Entre Investimento e Participações.
A aproximação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro começou no dia 8 de dezembro de 2024. O empresário Flávio Carneiro escreveu a Vorcaro, de quem é frequente conselheiro: “Thiago tá cobrando se você vai num jantar c meu xará e o pai dele pelo que entendi, você tá ciente disso?” E opinou: “Acho uma roubada danada.” Ele falava de Thiago Miranda, o intermediador, e do encontro com Flávio e Jair Bolsonaro. Vorcaro respondeu: “Não sei nem de quem tá falando.” Carneiro explicou que Thiago Miranda insistia em juntá-lo com “o meu xará e o pai”, e o banqueiro encerrou: “Temos que pensar nisso.”
Pouco depois do meio-dia, Thiago Miranda escreveu ao banqueiro sobre “o filme do presidente”: “Flavio, bolso querem sentar com vc. Tem 40 minutos pra matarmos isso na quarta?” Disse ter “dois assuntos” (“Do filme do presidente e do SBT $$”) e que “Flavio [Carneiro] está ciente de tudo”. À tarde, Miranda insistiu: “Confirmei com o Flávio Bolsonaro. Quarta dia 11 às 17:30 aqui na sua casa de Brasília.” Era o começo de tudo.
Em seu estilo de combinar exposição absoluta em alguns casos com discrição severa em outros, Vorcaro escreveu para Carneiro na noite seguinte: “Não fala dessa reunião bolso pra ninguém!” E acrescentou: “Esse negócio acaba comigo.” Carneiro respondeu que estava “morrendo de medo” e que já comentara com ele ter “receio do xará”. À época, Jair Bolsonaro já havia sido indiciado pela Polícia Federal por tentativa de golpe de Estado no processo que o levaria à condenação e prisão no segundo semestre de 2025.
Planetário Notícias
Fonte: Revista Piauí
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