EXCLUSIVO: Ex-chefe do Exército brasileiro revela detalhes da luta para impedir o golpe de Bolsonaro

  PN - Carlos de Almeida Baptista Júnior descreve o encontro de 2022 em novo livro, enquanto o filho do ex-líder disputa a presidência com escândalos de corrupção do Banco Master e desvios de milhares de reais para um filme sobre o pai.

O condenado golpista Jair Bolsonaro estava em seus últimos dias como presidente do Brasil quando, seis semanas após perder a eleição e ainda se recusando a reconhecer o resultado, convocou os chefes das Forças Armadas para uma reunião.

O ministro da Defesa, General Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, retirou um documento de uma pasta plástica e entregou cópias aos comandantes da Marinha, do Exército e da Força Aérea.

Tratava-se de um projeto de decreto que propunha invalidar a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em outubro de 2022 e manter Bolsonaro no poder.

“O projeto de decreto do golpe – que algumas pessoas ainda insistem até hoje que nunca existiu – estava lá, aguardando aprovação ou rejeição; consenso ou maioria”, escreve o então chefe da força aérea, Tenente-Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, em um novo livro que será lançado este mês.

Ao saber que o documento impediria Lula de assumir o cargo, Baptista Júnior disse ao ministro da Defesa que se recusava até mesmo a recebê-lo: “A Força Aérea não vai participar disso”. Em seguida, levantou-se e saiu da sala.

A extensa investigação e o julgamento que condenaram Bolsonaro por tentativa de golpe concluíram que o plano não avançou principalmente porque os chefes de duas das três Forças Armadas – Baptista Júnior e o comandante do Exército, General Marco Antônio Freire Gomes – se recusaram a participar.

O comandante da Marinha, almirante Almir Garnier Santos, foi condenado, assim como Nogueira. Ambos cumprem pena em instalações militares, enquanto Bolsonaro está em prisão domiciliar .

Freire Gomes manteve um perfil discreto, mas Baptista Júnior, falando ao Guardian por videochamada, disse que decidiu escrever um livro para ajudar a evitar que a história se repita.

No livro, o ex-piloto de caça de 65 anos oferece um relato detalhado e em primeira mão das várias maneiras pelas quais Bolsonaro tentou se manter no poder.

Baptista Júnior disse que foi motivado pelo fato de que, apesar da abundância de provas apresentadas durante o julgamento do ex-presidente, as pesquisas de opinião ainda mostravam que cerca de um terço da população não acreditava que tivesse havido uma tentativa de golpe.

“Manter no poder alguém que perdeu uma eleição é um golpe de Estado”, disse ele, falando de sua casa em Brasília, onde estava vestido com roupas civis – já que havia se aposentado recentemente – e prestes a buscar seu neto na escola.

O livro, cujo título em português se traduz como "Eu disse não! – Um baluarte anti-golpe", deverá ser publicado em 15 de setembro, cerca de duas semanas antes do primeiro turno das eleições presidenciais, em que Lula enfrentará um dos filhos de Bolsonaro , o senador de extrema-direita Flávio Bolsonaro.

Alguns apoiadores de Bolsonaro acusaram Baptista Júnior de tentar influenciar a votação. Ele afirmou que o lançamento do livro foi simplesmente resultado do processo de escrita e edição.

Apesar de ter escrito que votou no populista de extrema-direita nas eleições de 2018 e 2022, e até mesmo de relatar um momento descontraído em um churrasco quando viu a primeira-dama repreender o presidente por beber cerveja, Baptista Júnior critica Bolsonaro, um ex-capitão do Exército que passou 30 anos, em grande parte sem destaque, como vereador e depois deputado federal antes de chegar à presidência.

Ele descreve seu antigo chefe como alguém com "limitações significativas em experiência política, institucional e administrativa" e uma "impermeabilidade quase total a opiniões ou informações externas que não se conformassem às 'verdades' que ele já havia estabelecido como suas" – citando sua recusa em aceitar fatos como as evidências científicas que apoiam a vacinação contra a Covid-19.

Durante a eleição, Bolsonaro ficou “totalmente consumido por seus próprios esforços para permanecer no cargo”, escreve Baptista Júnior. Depois de lançar dúvidas repetidamente sobre a votação, o presidente ordenou que as Forças Armadas investigassem o sistema de votação eletrônica, mas se recusou a aceitar os relatórios quando estes não encontraram irregularidades.

“Ele pode ainda não acreditar no resultado da eleição, mesmo hoje. Se isso é uma questão de caráter, personalidade ou algo patológico, eu não sei”, disse Baptista Júnior.

O livro menciona, mas não se aprofunda em, uma das revelações mais chocantes da investigação do golpe: um plano elaborado pelas forças especiais do exército para sequestrar ou assassinar Lula , o recém- eleito vice-presidente e ministro da Suprema Corte. Baptista Júnior escreve que não foi convocado para essas reuniões e só soube delas pela imprensa.

Ele relata, no entanto, mais de uma dúzia de reuniões em que Bolsonaro convocou os chefes das Forças Armadas para discutir maneiras de se manter no poder. Em uma delas, ele testemunhou o chefe do Exército dizer ao presidente, após ouvir uma proposta de ruptura institucional: “Se você fizer isso, terei que prendê-lo”.

Baptista Júnior já havia prestado esse depoimento, e durante o julgamento tanto Freire Gomes quanto Bolsonaro o negaram. Mas ele mantém sua versão dos fatos no livro, escrevendo que não era algo que alguém presente pudesse esquecer.

Dizer não ao golpe custou ao piloto “muitas amizades”, disse ele. Até mesmo alguns militares ainda o chamam de “traidor” ou “melancia”, um termo pejorativo para soldados vistos como verdes por fora por causa de seus uniformes, mas vermelhos comunistas por dentro.

Os ataques começaram logo depois que o chefe da Força Aérea se recusou a participar da conspiração, quando o general do Exército Walter Souza Braga Netto, a quem Baptista Júnior considerava um amigo, ordenou a outros oficiais militares que o atacassem nas redes sociais e “tornassem a vida dele e de sua família um inferno”. Braga Netto, companheiro de chapa de Bolsonaro, também foi condenado pela tentativa de golpe.

A maior parte das revelações de Baptista Júnior no livro surgiu inicialmente em 2024, quando ele foi intimado a depor à polícia federal e somente então, mais de um ano após deixar o cargo, revelou ter testemunhado uma tentativa de golpe.

Juliano da Silva Cortinhas, que trabalhou no lado civil do Ministério da Defesa entre 2013 e 2016, antes do governo Bolsonaro, disse: “É positivo que ele [Baptista Júnior] e o chefe do Exército tenham dito não ao golpe, mas, por dever, deveriam tê-lo denunciado à polícia assim que aconteceu”.

Cortinhas, que dirige um grupo de pesquisa em segurança na Universidade de Brasília, disse que as Forças Armadas não podem se apresentar como as “salvadoras” da democracia porque isso seria como “fazer a sociedade tropeçar e depois estender a mão para ajudá-la a se levantar”.

“Foram os comandantes que permitiram que oficiais da ativa participassem da política”, disse ele, observando que o governo Bolsonaro teve, de longe, o maior número de militares atuando em cargos civis desde o fim da brutal ditadura militar de 1964-1985.

Cortinhas considera positivo o fato de oficiais de alta patente terem sido condenados por tentativa de golpe pela primeira vez, mas observou que outros envolvidos na conspiração escaparam da justiça e muitos nem sequer foram identificados .

“O risco de um novo golpe é ainda maior hoje”, disse ele.

O novo fator, segundo ele, foi o presidente dos EUA, Donald Trump, que buscou influenciar eleições em toda a América Latina em apoio a candidatos de extrema-direita como Flávio Bolsonaro. Em 2022, quando Joe Biden estava na Casa Branca, o vice-presidente de Bolsonaro reconheceu que uma tentativa de golpe deixaria o Brasil em uma “posição difícil perante a comunidade internacional”.

Cortinhas disse temer que, se Lula fosse reeleito e Trump se recusasse a reconhecer o resultado, alguns membros das Forças Armadas brasileiras pudessem se sentir encorajados. "Grupos que apoiam golpes ainda existem dentro das Forças Armadas", afirmou.

Baptista Júnior confirmou que, embora fosse difícil saber quantos, ainda havia militares da ativa que acreditavam que um golpe de Estado seria justificado em certas circunstâncias.

“Por isso, a vigilância constante é o melhor caminho”, disse ele.


Planetário Notícias 

Fonte: The Guardian


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