Corrupção: PF desencadeia operação contra grupo do bolsonarista Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara

 PN - "Deus, Pátria e família". 

 Em dezembro, em um endereço ligado ao bolsonarista e suposto pastor Sóstenes, a PF apreendeu cerca de R$ 430 mil em espécie. Operação Rent a Car investiga suposto esquema de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A Polícia Federal desencadeou nesta quarta-feira (1º) a terceira fase da Operação Rent a Car, denominada Operação Galho Fraco II, que aprofunda investigações relacionadas à suposta prática dos crimes de peculato, lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa no grupo ligado a Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL, partido de Flávio Bolsonaro (PL), na Câmara.

Segundo a PF, estão sendo cumpridas no Distrito Federal, em Goiás e em Minas Gerais para coleta e preservação de elementos de prova. Sóstenes não é alvo desta fase da operação. Em dezembro, em um endereço ligado a Sóstenes, a PF apreendeu cerca de R$ 430 mil em espécie.

“As investigações apontam indícios de possível esquema envolvendo agentes públicos, particulares e pessoas jurídicas supostamente utilizadas para dar aparência de legalidade à movimentação de recursos públicos. Há também indícios de possíveis tentativas de ocultação ou alteração de provas, o que pode caracterizar fraude processual”, diz a PF em nota.

Segundo os investigadores, nas fases anteriores, foram identificadas supostas irregularidades na contratação de empresa de locação de veículos com recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP). A atual fase aprofunda as apurações sobre a movimentação e a destinação desses recursos.

Durante a operação, os agentes apreenderam dinheiro em espécie escondido dentro de um livro com fundo falso na casa de um advogado que é alvo da ação.

R$ 430 mil em dinheiro

Em dezembro, ao cumprir mandatos de busca e apreensão, a PF apreendeu R$ 430 mil em espécie em um endereço ligado a Sóstenes Cavalcante. Além dele, Carlos Jordy (PL-RJ) foi alvo da ação.

Segundo os investigadores, o esquema envolvia o uso de contratos falsos com locadoras de veículos para justificar despesas inexistentes, permitindo o desvio de verbas públicas e a posterior lavagem de dinheiro.

A rota dos R$ 430 mil: comprador de casa de Sóstenes soma flagrante armado e clã punido por fraude.

Thiago Ferreira de Paula assumiu o pagamento de R$ 500 mil em espécie para o deputado 11 dias após ação da PF; investigação documental revela teia familiar que cruza com apreensão de armas, simulação contábil julgada pela Fazenda de Minas Gerais e inquéritos no Ministério Público.

Para tentar justificar os R$ 430 mil em dinheiro vivo encontrados pela Polícia Federal, o deputado federal e pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) apresentou a venda de uma casa no interior de Minas Gerais. O comprador do imóvel, o advogado Thiago Ferreira de Paula, carrega um histórico que puxa o parlamentar para um enredo muito mais complexo. Documentos públicos revelam uma teia familiar marcada por autuação em megaoperação contra lavagem de dinheiro, cargos em clube de tiro e punições por simulação contábil.

O primeiro sinal de alerta para os investigadores repousa na cronologia do negócio. A escritura atesta a venda da casa em Ituiutaba por R$ 500 mil, quitados integralmente em espécie. O imóvel havia sido comprado por Sóstenes em 2023 por R$ 310 mil. O registro em cartório, no entanto, ocorreu apenas no dia 30 de dezembro de 2025, exatos 11 dias após a operação da PF bater à porta de um endereço ligado ao mandato do parlamentar. O episódio foi amplamente repercutido pela Revista Fórum.

O cruzamento com a Operação Zebu

Para entender quem assumiu o pagamento em dinheiro vivo para o líder da bancada evangélica, é preciso voltar a agosto de 2007. Naquele mês, o Triângulo Mineiro foi alvo da Operação Zebu. A força-tarefa mobilizou Ministério Público, Polícia Federal e Receita Estadual contra uma robusta organização criminosa focada em lavagem de dinheiro e sonegação fiscal no setor de frigoríficos.

A investigação mapeou o uso de laranjas, empresas de fachada e falsificação de carimbos de inspeção. Toda a engenharia financeira contava com o suporte de escritórios de advocacia e contabilidade locais. Foi exatamente durante o cumprimento de mandados de busca nesses escritórios que Thiago Ferreira de Paula cruzou com a polícia.

Filho de Saul Ferreira de Paula, advogado e dono de um dos escritórios de contabilidade vasculhados, Thiago foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma de fogo. Ele portava uma pistola Bereta calibre 6.35 mm durante a operação. Mesmo sem registros públicos atuais de condenação criminal por lavagem, a autuação insere o comprador da casa de Sóstenes no epicentro de uma das maiores ações contra a ocultação de patrimônio na região.

Clube de tiro e negócios agropecuários

O envolvimento com armas não se restringiu ao flagrante da Operação Zebu. A documentação oficial de Ituiutaba expõe uma atuação direta nesse setor. Um documento da Câmara Municipal, anexado ao Projeto de Lei CM nº 71/2010, formaliza o advogado no cargo de 2º secretário, em 2010, do Águia Clube de Tiro de Ar Comprimido de Ituiutaba,  e sede na rodovia BR-365.

Fora do estande de tiros, os negócios se expandem para a agropecuária, setor conhecido pelos desafios de rastreabilidade financeira. Em novembro de 2024, a prefeitura emitiu o Certificado de Licenciamento Ambiental Simplificado para a Fazenda Gafanhoto. A licença está em nome de Thiago e autoriza a criação extensiva de bovinos e equinos em mais de 14 hectares, com validade até 2034.

Punição por “simulação contábil” na Fazenda estadual

As suspeitas que recaíram sobre o escritório da família em 2007 não encerraram os atritos com o Fisco. O pai de Thiago, o contabilista Saul Ferreira de Paula, sofreu um duro revés administrativo uma década depois.

Um acórdão julgado em 2017 pelo Conselho de Contribuintes de Minas Gerais incluiu Saul como coobrigado em uma multa milionária contra a empresa Frig’ West Frigorífico Eireli. Os auditores detalharam um esquema de saída de mercadorias sem nota fiscal, acompanhado da injeção de recursos de origem desconhecida no caixa da empresa.

A decisão cravou a ocorrência de “simulação de registros contábeis” arquitetada para burlar o ICMS. O conselho atestou a participação direta do contabilista nas fraudes, decisão que foi mantida integralmente pela Câmara Especial do órgão no ano seguinte.

A mãe do advogado também possui forte trânsito na máquina pública. Servidora municipal e advogada, Abgail Maria da Silva de Paula tentou uma vaga na Câmara de Ituiutaba nas eleições de 2024. Concorrendo pelo MDB como Abgail Paula, obteve 26 votos e terminou como suplente. Em 2020, o Diário Oficial do Ministério Público estadual registrou o arquivamento de um inquérito civil que investigava possíveis irregularidades nos proventos da servidora e o uso da estrutura funcional para advocacia privada, caso encerrado após uma recomendação corretiva.

O cerco da Operação Galho Fraco II

O peso desse histórico documental coloca em xeque a narrativa de Sóstenes na capital federal. A justificativa de que o dinheiro vivo é fruto exclusivo de uma transação lícita colide de frente com os desdobramentos da nova Operação Galho Fraco II.

Autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, a investigação da Polícia Federal busca rastrear justamente o fluxo financeiro oculto de agentes políticos. O foco é o desvio de recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar e o uso sistemático de laranjas e contratos de fachada para lavar o dinheiro desviado.

Sóstenes, listado como líder partidário do PL, nega irregularidades. Contudo, a versão do “dinheiro guardado por lapso” agora precisa sobreviver ao escrutínio público sobre as verdadeiras intenções e a capacidade financeira de um comprador umbilicalmente ligado a armas, fazendas e sentenças por fraudes contábeis.





Planetário Notícias 

Fonte: Revista Forum



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