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segunda-feira, setembro 18, 2006

Menino Rico, Menino Pobre

O menino rico está brincando, no quarto, enorme, todo equipado. A empregada doméstica chega com o maior carinho – por causa da patroa, claro – e chama-o para comer seu almoço ou janta. O menino esperneia, grita, bate, faz de tudo, mas não vai comer. E ai da empregada doméstica se o fizer chorar. Vem a mãe e vê que o menino não quer comer e por “amor” ao filho, deixa-o brincando em paz.
O menino pobre está brincando na rua que está toda suja, cheia de lama, uma vez ou outra passa um carro que obriga ele e os amiguinhos a interromperem a brincadeira. Quando o carro passa a poeira fica muito alta, às vezes não dá para ver mais quase nada, obrigando-os a esperarem a poeira baixar para voltarem à brincadeira. Chega a hora do almoço, a mãe do menino chama-o. Com um mal humor, um estresse insuportável, com uma voz estridente. O menino pede para brincar mais um pouco, mas a mãe pega o chinelo e o ameaça de bater caso não fosse comer, e ainda acrescenta que se não for logo o pai ia comer tudo quando acordasse da ressaca.
O menino rico acorda no meio da noite e desata um choro. Todo mundo acorda e vai mimá-lo até que volte a dormir, numa cama extremamente confortável, com o clima agradável, nenhum barulho e muita tranqüilidade.
O menino pobre dormindo no chão porque pelo rodízio, hoje era a noite de outro irmão seu ocupar a cama, que já estava sendo dividida por cinco. Todos os dias as crianças faziam um rodízio para ver quem era que dormiria no chão e quem dormiria na cama. No meio da noite ouvem-se tiroteios e gritos de agonia. Sons de carros e ambulância, de policiais gritando e bandidos correndo por entre as casas para despistarem. O menino desata no choro. O pai roncando acorda e grita: “Vai dormir moleque!”. Mas o menino ainda chora. De repente, toda descabelada surge a mãe, magrela, feia, descuidada, gritando: “Engole o choro menino!”. Pelo susto o menino desata a chorar mais alto e mais desesperadamente. A mãe ainda tenta, pegando a chinela na mão ameaçando: “não vai engolir o choro não?!”. Até que o menino se cala.
O menino rico passeando pela cidade, no carro do ano, todo equipado, com motorista, passa pela rua onde está o menino pobre sentado na calçada de casa. Lança seu olhar de desprezo ao menino pobre, que calmamente vem pedir esmola, pois o carro havia parado no sinal. O menino rico sorri da cara do outro, e manda-o desencostar, senão ia sujar e precisaria comprar outro. O menino pobre sai chorando pelos becos da favela.
O menino rico passa numa faculdade particular e se forma num curso bastante concorrido. Apesar de ter sido um dos piores alunos, seus pais fizeram com que os reitores o agüentassem lá, afinal, eles eram milionários, e isso era argumento suficiente para mantê-lo estudando em qualquer escola. Quem queria perder tamanha honra?
O menino pobre, sem nenhuma saída, sem recursos nenhum para uma vida digna, sem poder ir à escola, apesar de que no tempo em que ele pôde freqüentar a escola, mesmo que só por um ano, foi o melhor aluno, não tinha mais nenhuma condição, nem em uma pública. Seu pai chegava todo dia bêbado, e quando acordava já quase de tarde passava o dia fora. Sua mãe sempre tinha a cara “amarrada”. Não teve saída e entrou para o mundo dos crimes. Começou numa posição bem inferior, mas foi se dedicando, até que em pouco tempo tornou-se chefe de uma boca de fumo.
O menino rico, agora com um emprego conseguido pelo pai, fica o dia todo sem saber o que fazer, só de bobeira na empresa, afinal, não aprendera nada no curso. De noite vai numa boate ou numa rave, das mais badaladas da cidade.
O menino pobre agora dominava várias bocas de fumo e tornou-se chefe do crime local. Enriqueceu com o ofício e começou a freqüentar uma boate fina de gente rica. Começou a observar o local, viu que o pessoal lá eram todos bem de vida. Viu a condição de cada um e despertou-lhe a idéia de ali ser o seu tesouro.
Convocou a gangue e arquitetou um plano para assaltar a boate. O plano se consumou com absoluto sucesso. Além de levarem todo o dinheiro da boate assaltaram a todos que estavam lá, e então decidiram por se especializar no ramo.
O menino rico, no trabalho, soube da notícia da gangue que estava assaltando as boates. Ele ficou sabendo porque disseram a ele, pois ele nunca leu jornal. Nem se importou. Neste dia contratou uns dois seguranças para acompanhá-lo onde fosse. No percurso para a boate viu o menino pobre de novo, sentado na calçada de casa, normal. Parou no sinal, o menino pobre veio cobrar pedágio, pois aquela região ali era dele. Os seguranças do menino rico sacaram a arma e o espancaram lá. O menino rico ficou sorrindo e mangando como nunca da vida do pobre infeliz. O menino pobre lembra-se dele, mesmo sendo o chefão, não podia dar bobeira naquele ponto que era tão suscetível à polícia, portanto não tinha quem o ajudasse no momento.
O menino pobre mandou comprarem jornal e lhe dessem as páginas com foto. Finalmente ele encontrou. A foto com a legenda dizendo que este - o menino rico - era o freqüentador ilustre da boate.
No outro dia o menino pobre reuniu a gangue e foi para aquela boate. Entrou sozinho para ter uma pequena conversa com o menino rico. Ao se encontrarem, o menino rico nem prestou atenção aos dizeres do menino pobre, afinal, ele era pobre, não tem nada o que falar além de pedir esmola, e como ele tinha entrado lá?
Os seguranças do menino rico pegaram o menino pobre a força e o levaram para fora. Lá, quando foram espancá-lo, foram fuzilados pela gangue. Nesse momento colocaram o plano em ação. Roubaram a todos e humilharam o menino rico, que chorava como uma criança, assim como o menino pobre chorou pela primeira vez quando foi humilhado.
O menino pobre não se contentou e matou o menino rico. Chegou a polícia e cercou o prédio da boate. Como o menino pobre já tinha realizado o seu sonho de infância - se vingar do menino rico - não pensou duas vezes e matou todos os reféns e trocou tiros com a polícia que como sempre, não teve como reagir.
O menino pobre saiu correndo com a gangue num carro, com todas as coisas roubadas. A polícia saiu correndo, mas não os alcançou.
O pai do menino rico, por ser rico teve apoio total da mídia, sendo assim o menino pobre totalmente repudiado. A polícia toda foi comovida à força pela mídia, pois todos eles temiam o menino pobre que se tornara muito poderoso com sua gangue. Mas o dinheiro do pai do menino rico contava mais, e cercaram toda a favela e fuçaram tudo, até encontrarem o menino pobre e matá-lo, divulgando depois na imprensa que ele foi vítima de bala perdida dos confrontos.
Caso encerrado...

4 comentários:

eduardo disse...

Conto forte e crítico. Muito bom!!

Águas da Vida disse...

A injustiça social esta nas letras desse conto, onde existe um menino miseravel e um rico, nao poderiam ser todos naomuito rico, mas instaveis?
Big Kiss

Vanna disse...

Muito bom o texto.
Só ressalto uma coisa. Nem todo menino pobre quer aproveitar as parcas oportunidades oferecidas. Trab. em escolas públicas e em muitos casos não há interesse e nem preoucupação com o futuro.
Abraços

Gabriela Iscariotes disse...

Achei um texto bem piegas e tendencioso. Como se todo menino pobre fosse um "melhor aluna da classe" injustiçado, e como se todo menino rico fosse um folgado.