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quinta-feira, dezembro 14, 2006

Crônicas & Críticas

Regras da prosperidade
Um amigo meu estava se lamentando do atual trabalho que, segundo ele, é chato e extremamente mal-remunerado - afirmação com a qual eu concordo em gênero, número e grau! No meio das reclamações, ele dizia:

- Queria tanto arrumar um trabalho legal! Por que tem que ser tão difícil? Poxa, eu não quero ficar rico, não quero um super salário. Só quero um emprego decente!

Fiquei impressionada com o comentário. Não resisti e perguntei:

- Qual é o problema de ficar rico e ter um super salário?

Eis que vem a resposta:

- Ah, eu sou humilde, você sabe!

Não, ele não é humilde. Talvez seja pobre de espírito. Estamos acostumados a confundir humildade com querer pouco da vida, a achar que a pobreza ou a limitação nos fará mais "bonzinhos" aos olhos de Deus.

Eu refaço a pergunta: qual é o problema em ficar rico? Por que tantas pessoas vêem isso como algo errado ou indigno? Não consigo entender por que a nossa sociedade lida de uma maneira tão ruim com dinheiro e com a riqueza. Estamos acostumados a achar que ricos não prestam e pobres são boas pessoas esforçadas e gentis. Não paramos para pensar que gente boa ou ruim se encontra em tudo quanto é lugar, em todos os tipos de cultura, independente do dinheiro na conta bancária.

Outro dia um colega de trabalho falava com desdém de uma amiga dele que fez compras na Daslu. "Você acha que pessoas assim ajudam o próximo? Imagina, ignoram solenemente". Eu nada respondi, porque não vou criar caso com pessoas com quem não tenho maiores intimidades. Mas tive vontade de responder: "O que é que você sabe da vida delas para julgá-las?". Se elas ajudam o próximo, ótimo. Se não ajudam, e daí? Desde quando isso é problema nosso? Façamos a nossa parte - que achamos que nos cabe - e deixemos os outros em paz. O que cada um faz com o seu dinheiro ou com o seu patrimônio é um problema único e exclusivo do proprietário. Quando fazemos comentários desdenhosos como este acima, estamos revelando uma profunda inveja. É como se disséssemos: "Não sou rico como ele (a), mas sou decente/honesto/trabalhador". Ou seja, tentamos nos valorizar destruindo a imagem do outro, por não nos considerarmos no mesmo nível. E a pessoa em questão não pode ser também honesta/trabalhadora/decente ou cheia de virtudes? Quem somos nós para estabelecer quais são os padrões de certo e errado neste mundo?

Se alguém tem a vida fácil, torcemos o nariz. Desmerecemos a pessoa. Se ela vivesse em dificuldade, aí sim, as pessoas dariam valor. E o que dizer das pessoas que se autovalorizam? São tidas como exibicionistas, esnobes. E aqueles que vivem reclamando o quanto a vida é complicada, como elas têm problemas... essas são consideradas "humildes", "simples", como se isso fosse sinônimo de merecimento do reino dos Céus.

Há um tempo a apresentadora Adriane Galisteu deu uma entrevista para as páginas amarelas da Veja, dizendo que adorava dinheiro. Adorava o luxo, viajar de primeira classe, ter milhares de sapatos. Choveram cartas cheias de críticas. Primeiro, por dar valor a esse tipo de coisa em um país com tanta desigualdade social. Segundo, por não desenvolver trabalhos sociais ou doar parte de sua renda para a caridade.

O que é que as pessoas têm com isso? Se ela gosta de dinheiro e de luxo, o problema é dela. Tanto gosta que o atrai, ficou rica e desfruta de todas as benesses. Qual é o problema de gostar de dinheiro? Isso a faz pior do que nós? Não faz mesmo! Se ela faz caridade ou não, isso também é problema dela. Caridade é uma coisa que só se deve fazer quando o coração sente vontade, e não porque é uma obrigação social. E se ela não doa dinheiro a criancinhas carentes, pode fazer várias outras caridades que nós nem percebemos: ser boa amiga, boa conselheira, ajudar a melhorar o astral de pessoas tristes...

"Essa aí só pensa nela", já ouvi muito por aí. Ótimo. A pessoa que sabe se dar valor e se acha merecedora do bom e do melhor não está fazendo nada de errado. Muito menos aquela que se coloca em primeiro lugar. Fomos ensinados que todos são mais importantes do que nós, que os outros são prioridade, que devemos abrir mão de nossas coisas para fazer pelo outro.

Conheço várias e várias e várias pessoas assim. E, sinceramente, só vejo desvantagens. A primeira delas é que, quem vive em função dos outros, no fundo o faz por vaidade. Precisa ser aceito e amado por todos, não admite a possibilidade de que alguém se desagrade com ele. Tem que ser perfeito! Dizer "não" a alguém é uma ofensa!! Significa que, aos olhos do outro, ele deixará de ser perfeito, o super-herói, o maioral. Em segundo lugar, vem o pior: são pessoas que vivem cercadas por egoístas interesseiros, que montam nas costas e transferem todos os seus problemas para o senhor "os-outros-são-mais-importantes".

Uma coisa não se pode negar: cada um está aqui para cuidar da sua vida e resolver os seus próprios problemas. O problema dos outros é dos outros. Ajudar é uma coisa. Assumir o fardo alheio, achando que assim está ganhando pontos no Céu, só vai trazer problemas e atrasar a sua vida. Vida esta, aliás, que Deus lhe deu para fazer dela o melhor. Quando você a deixa de lado para cuidar da vida dos outros, está negligenciando um grande presente divino. E isso, sim, é uma coisa muito feia aos olhos d'Ele.

Se encontrarmos pelo nosso caminho pessoas ricas, bem-sucedidas, com vida fácil, sem grandes fardos para carregar nas costas, que tal sorrirmos e desejarmos sinceramente o melhor a elas, ao invés de dizer que elas não prestam porque não estão sofrendo e carregando cruzes pesadas? E que tal desejarmos isso para nós também, sem vergonha de nada? Que tal nos considerarmos merecedores da prosperidade, riqueza, da saúde, da felicidade?

Quem se contenta com pouco, pouco terá. Sem nenhum mérito nisso!

2 comentários:

Águas da Vida disse...

O egoismo é a razao da maioria dos seres humanos, acho que quem tem muito poderia dividir nao tudo mas ao menos 50% de suas riquezas com quem nao tem nada...O mundo seria bem melhor.
Big Kiss

Ricardo Rayol disse...

terreno perigoso este... sou da politica que com os impostos que pagamos fazer caridade é sacanagem. Mas nao concordo que as pessoas esfreguem na cara dos outros seus gastos. Não que eu tenha algo contra em absoluto, se alguem é tao rico que nem sabe com o que gastar o problema nao é meu, na verdade fodam-se eles mas é foda vc estar contando dinheiro e um puto (ou puta) que ganha dinheiro com atividades completamente irrelevantes dizer que uasa uma calcinha só 3 vezes.