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quarta-feira, agosto 09, 2006

Padecer no paraíso?

Eu consigo imaginar Américo Vespúcio às vésperas de embarcar em uma de suas caravelas em busca de novos continentes e novas aventuras. Ele preocupado e com a cabeça voltada para o que ainda estava por vir. Atrás dele, a mãe cobrindo-lhe as orelhas de chatices:

- Você é louco! Irresponsável! Não sabe que ali tem um precipício? Ali você vai morrer, menino! Pra quê você tem que ir? É pra me deixar louca, só pode. Pra me matar do coração! Todo mundo sabe que gigantes habitam aquela área. Eles vão destruir tudo. Mas é claro que você não está nem aí. Você não tem mesmo consideração pela sua mãe.

Eu sei que muitos dos leitores são pais, mas vou dizer: pais são os piores conselheiros que existem. Pais sempre têm a mania de querer proteger seus filhos de todos os males do mundo, achando que eles não podem colocar o dedinho pra fora do círculo, caso contrário eles serão comidos pelo lobo mau.

Pais têm mania de achar que eles sabem o que é melhor para seus filhos. E recusam-se solenemente a parar para pensar sobre o que eles querem da vida.

Há anos eu digo para os meus pais que não quero mais ser jornalista, que quero mudar de profissão, que eu odeio o que eu faço. E há anos eles ignoram solenemente este fato. E como as tentativas que fiz para mudar o rumo ainda não deram certo, é ainda pior. Hoje mesmo eu ouvi um comentário sobre um trabalho extra que eu estou fazendo, e que eu detesto fazer: "Vai ser ótimo, assim você adquire experiência nesta área!". E eu respondi: "Eu não quero ter experiência nesta área. Eu odeio esta área. Quantas vezes eu vou ter que repetir??????"

Outro dia falei que iria fazer outra faculdade, e ouvi um comentário lindo:

- Pra quê você quer fazer psicologia? Para morrer de fome?
- Mas eu gosto.
- Esse negócio de gostar do trabalho é bobagem.
- Ah.
- Você tem que fazer Direito.
- Mas eu odeio Direito.
- Não, mas aí você pode fazer concurso público.

Muito inteligente e motivador. Eles sequer admitem a possibilidade de eu ter sucesso no empreendimento. O fato de eu ser extremamente infeliz na minha profissão é uma grande bobagem. Eles não param para refletir nem quando eu chego em casa num mau humor do cão, dizendo que eu não aguento mais fazer o que eu faço, que acordo todos os dias querendo enfiar a cabeça no forno. A resposta é sempre a mesma:

- Pior é a fila do desemprego.

Essa linha de pensamento é de uma mediocridade ímpar. Não tente, não ouse, não faça nada. Procure sempre o caminho mais seguro. Em resumo: Américo Vespúcio, não se atreva a sair por aí nesses mares perigosos. Fique em casa tomando a sopa da mamãe!

Pais, em sua grande maioria, são assim. O amor gera uma ânsia por proteção, que às vezes faz com que as pessoas não entendam que os filhos não são delas, e sim do mundo. Esse medo do lado mal das coisas leva os pais a acharem que podem proteger os filhos, ou poupá-los da desilusão. Muitas vezes acabam gerando filhos ansiosos, frustrados e perdidos.

Não saia de casa sem agasalho, não fale com estranhos, pense mais nos outros do que em você, seja sempre humilde e engula sapos. Quem nunca ouviu isso dos pais? Sim, eles acham que assim seus filhos não correrão riscos. A mediocridade protege do erro, mas também impede o acerto. A vida é isso: é correr riscos. Os vencedores, os brilhantes, os casos de sucesso, todos foram baseados no risco. E mesmo os perdedores ao menos usaram a experiência ruim de lição para uma próxima tentativa.

E todos, com certeza, não tinham os pais atrás dando palpite e dizendo pra não fazer, porque é perigoso, menino!!!!

Claro que alguém pode me dizer: "Ah, mas se eu tivesse ouvido meu pai (ou mãe) e feito como ele me aconselhou, teria sido melhor!". Eu posso dizer o seguinte:

a) se você fez algo que deu errado, pelo menos você aprendeu algo com isso. Você testou a sua própria capacidade.

b) não se sabe se teria sido melhor. Talvez tivesse dado mais errado ainda.

c) se todos os pais tivessem sempre a razão de tudo (pela experiência ou sabedoria), eles seriam gurus ricos, bem sucedidos, escreveriam livros de auto-ajuda. E viveriam a vida deles, sabendo que os filhos devem ser livres para seguir os seus destinos.

d) o que é melhor na avaliação dos seus pais, não é necessariamente melhor para você. O que é melhor pra você, na avaliação deles, é sempre uma projeção do que eles gostariam de ter sido e não foram. E como cada indivíduo é único, repetir fórmulas não é a melhor saída.

e) eu aposto meus dez dedos como você vai concordar com tudo isso, mas fará igual aos seus pais com os seus filhos. Acertei?

Amar não é só proteger os filhos. É respeitar as decisões deles de serem felizes de um modo único. Se não for do seu modo, melhor. Isso significa que você criou um ser humano autêntico e sem medo de viver.

4 comentários:

Águas da Vida disse...

O que tem de gente formada motorista de taxi ou servindo algum rico ignorante sem estudos...
que dizer de tanta injustiça social?
Muda Brasil! Mas quando?
Big Kiss

Hilda disse...

Red, me mande teus dez dedos!

Como filha de uma mãe dominadora e como mãe que se esforçou desde o primeiro dia em ser o oposto da sua, quero teus dedos!

E ainda te dou um conselho: siga a tua vontade, faça o que acha melhor para você. Pra que ficar perguntando a opinião dos pais? Apesar de que, ouvir as opiniões é válido, mas encarar essas opiniões como ordens a serem cumpridas é errado!

Ou serão desculpas que se dá para não encarar desafios? Beijocas...

Grande Imprensa disse...

Boa noite Amanda,

Estamos passando p/saber como estão as coisas e tb, agradecer seu apoio e amizade!
Trouxemos o selo de participação do Concurso "Eu sou politicamente correto... e vc?", que fizemos especialmente p/todos que não foram classificados, apesar de simples, ele contêm todas nossa admiração e amizade por cada um de vocês!!

http://i111.photobucket.com/albums/n127/grandeimprensa/GI/Selos/Amanda1.gif

Não esq ueça de vir conferir sempre nossas Últimas Notícias, para nós é uma honra poder privar da sua amizade!

Um ótimo fim de noite!

Equipe GI

Lela Sodré disse...

Em numero, genero e grau..rsrsrs.....e sabe de uma coisa, aprendi com minha filha que os filhos podem sim, saber mais que os pais, tem direito de arriscar e com certeza tudo acaba bem.
Um abraço