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quarta-feira, julho 12, 2006

O que os outros pensam

Uma das frases que eu mais ouço dos meus amigos é "Ai, Red, vc é maluca!"

Eu não acho isso engraçado. Acho triste. Não sou maluca, eu simplesmente aprendi a muito custo a gostar de ser como eu sou. Pode parecer muito fácil para quem está percorrendo essas linhas, mas este é um dos maiores desafios do ser humano neste planeta, em uma sociedade como a nossa: aprender a se desvencilhar daquilo que esperam de nós, para sermos exatamente o que queremos.

Além de maluca, sou taxada de ser "do contra". Na verdade, eu não sou contra nada. Simplesmente não vou no embalo de ondas que determinam comportamentos e gostos temporários. Até pouco tempo atrás, a mídia fazia um massacre avassalador em cima da Copa do Mundo, fazendo com que todas as pessoas sentissem uma compulsão histérica em torcer pela seleção. Se você não saísse nas ruas devidamente uniformizado, para mostrar a todo mundo que, assim como eles, você também era obcecado pelo time do Brasil a ponto de pintar sua casa de verde e amarelo, seria considerado um pária.

Não tenho paciência para cair nessa ondinha "ó Pátria amada". Por isso, não restou outra alternativa para esta que vos fala senão aguentar os narizes torcidos dos outros. Se é assim que eles me viam, o que eu ia fazer? Aderir, só pra agradar, estava fora de questão.

A maioria esmagadora das pessoas é refém da avaliação alheia. Aprendemos desde cedo a considerar "o que os outros vão pensar". O que vão dizer os vizinhos? Você não tem vergonha de fazer isso? Acho que eu passei a vida inteira ouvindo comentários assim dos meus pais. E ainda ouço. Se bobear, ouço todos os dias, mesmo eu tendo ultrapassado a fronteira dos 30 anos e, em tese, saber exatamente o que é melhor pra mim.

Por causa disso, existe uma tendência social a aceitar aquilo que o grupo oferece, para que a pessoa se sinta incluída, parte de algo. E até que ponto o que uma pessoa gosta, planeja, sonha e busca é aquilo que sua essência realmente quer, e não aquilo que a sociedade impõe?

Vocês pensam que é fácil dizer aos outros que não está em seus planos ter filhos? Que você não quer ser mãe? Ah, meus caros, parece que você revelou ter comandado uma chacina, que ainda por cima comeu partes dos corpos das pessoas que você assassinou. "Mas como assim? Toda mulher sonha em ter filhos, isso é algo da natureza!". Pronto, lá vem o rótulo. Sou considerada louca, alguém que precisa de tratamento. Fico pensando até que ponto essa coisa do "sonho de ter filhos" de toda mulher é algo real, ou algo imposto como uma verdade inabalável, que as pessoas aceitam porque não têm coragem de ser diferentes.

O mesmo argumento posso utilizar quando ouço de minhas amigas que estão ficando ansiosas, porque estão na "idade de casar". E se espantam com o fato de eu não ter semelhante preocupação. Pra mim, casar é consequência: você tem uma relação legal, que evolui para um compromisso maior. Para a maioria, primeiro você decide que vai casar, e aí sai atrás do candidato. Dane-se se o futuro cônjuge é o contrário de tudo aquilo que você sonhou. O importante é casar, porque todo mundo tem que casar em uma determinada fase da vida. E ninguém entende por que as pessoas se separam tão fácil...

Quantas vezes por mês eu ouço um comentário do tipo: "Ai, tenho uma festa de aniversário pra ir, mas não estou com a menor vontade!". Eu respondo na hora: "Não vai, ué!". E a pessoa, dando um suspiro, diz: "Não posso, Fulano não vai me perdoar!". Nossa, quantas vezes já fiz isso! Ia a todas as festas que me convidavam para que o anfitrião me achasse legal. Mesmo que ele sequer tivesse notado minha presença. E ficava magoadíssima se as pessoas faltavam nas minhas festas ou desmarcava algum programa comigo. Hoje eu só vou se estou com muita vontade, e perdôo todo mundo que faltar em meus eventos. Acho que só deve vir quem está com vontade. Vir por obrigação, eu dispenso.

E se acharem ruim quando eu falto a uma reunião social? Bem, desaprovação faz parte da vida. Se gostarem de mim, vão relevar. Se começarem as cobranças, eu já corto logo. Neurose pra cima de mim, não!

Um dia eu resolvi apenas que eu queria ser eu mesma, e aceitar isso. Foram anos de terapia e angústias, até eu entender algumas coisas:

- se gostarem de mim, ótimo. Se não gostarem, o mundo não vai acabar. Eu também não gosto de um monte de gente, e não creio que isso faça diferença para essas pessoas.

- o que os outros pensam a meu respeito, é problema dos outros. E só dos outros.

- quem está preocupado demais em ser aceito, em ser gostado, em ser aprovado, no fundo é um grande manipulador. Quer controlar o que os outros pensam a respeito dele! E isso não passa de uma grande ilusão.

- quem segue a mesma linha de todo mundo, tem as opiniões comuns de todo mundo, gosta das coisas que todo mundo gosta... não é simplesmente ninguém.

E começar do zero, pra descobrir quem realmente somos e do que gostamos, é uma experiência inesquecível.

Blog Mesa de Botequim

8 comentários:

Fatima Gama disse...

Me vi em tudo que escreveu, sou assim também, não me importo muito com o que pensam de mim e também foi tempo que eu julgava as pessoas, vivo em paz com a minha consciência e pronto, hoje eu também não faço nada só porque tenho que agradar e também não me cobro mais nada. Como exempro cito meus relacionamentos, tinham que ser sérios senão mandava o cara pastar e o resultado tava sempre sozinha rsr, hoje se ele liga bem se não ta bom, quando dá vontade eu ligo, se quero sair saio senão digo que não e não vou só pra agradar, se ele fica uma semana sumido quando aparece fico feliz e não cobro mais, estou mais feliz e mais valorizada rsr, o importante é viver, seja sempre assim, vc mesma, regras foram feitas pra ser quebradas. Beijos, otimo texto!

Águas da Vida disse...

Que lindo texto concordo com a amiga Fatima mi vejo dentro do contexto...
Uma linda quinta-feira.
Big Kiss

Gustavo H.R. disse...

Off-topic: oportuno o texto a respeito da e-thrombosis, que eu pessoalmente desconhecia; que sirva de alerta aos que vivem (ou trabalham) frente ao micro.

Cumps. ;)

Guilherme disse...

Muito Obrigado pelo comentário no meu blog =)Espero que não deixes de visita-lo ;) Beijo

Seda disse...

Olá Red's
Em 1* lugar eu agradeço a visita,e em 2* eu agradeço a Red's por este texto maravilhoso e tão verdadeiro,é bem por ai que a um tempo atraz eu me sentia e hoje a cada dia que passa estou procurando me gostar..é isso mesmo...me gostar,porque é agindo assim que estamos pensando realmente en nós...Parabens Red's...seu texto ficou 10...
Desejo uma super quinta pra todas as meninas da "AGUAS DA VIDA " e deixo muitos bjosss
SEDA

Carol disse...

Olá meninas do Aguas da Vida...simplesmente amei o texto e estou divulgando o blog no meu cantinho romântico...com um poema da Cora Coralina ...bjos Carol ...ou Seda rsrs

Hilda disse...

Plac, plac, plac ... muito bom! Tem que ser assim mesmo! Continue ...

Gabriela Iscariotes disse...

Que mais eu posso dizer? Só posso bater palmas: parabéns, Red!

PS: já tive que ouvir de um rapaz a quem eu disse que não tinha a menor vontade de ter filhos que "quando chegar a hora, seus hormônios vão dar um jeito e vc vai ficar doida de vontade de ser mãe". Ele vem com essa pra cima de mim, justo eu que não acredito nesses "cienticifismos"?

PS2: e ouvir da mãe que eu não podia beber num boteco pé-sujo porque "o povo da cidade vai falar"? Ai, ai...