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quinta-feira, julho 27, 2006

Momento nupcial

Estamos numa época em que algo aconteceu com a água da cidade. De repente, todo mundo começou a se casar. Não aguento mais ir a festas de casamento. Primeiro, porque eu não tenho grana para comprar tantos presentes. Segundo, porque só de pensar naquele sapato de salto alto, meus dedos dos pés encolhem. De medo.

Eu particularmente não gosto de festas de casamento. Mas admito que meu lado de mulher má adora ficar olhando o vestido das outras (e falando mal, lógico), e gosta de ver a noiva entrar na Igreja. Aliás, casamento só tem essa graça: ver a noiva. E beber, claro. O resto, é chato aguentar tantas formalidades. Ai, e ficar em pé naquele sapato...

Eu já fui em vários tipos de casamento. Do mais formal, daqueles que custaram um apartamento, ao mais simples, tipo casamento comunitário. Em alguns, eu me diverti horrores. Em outros, quase tentei me enforcar na cortina do buffet, tamanha a chatice. Então vou contar a vocês uma história para ilustrar como, de acordo com minha brilhante cabecinha vermelha, poderia ser um casamento perfeito, seja ele rico ou pobre.

Cheguei atrasada em uma festa. Demorei a encontrar uma mesa com rostos conhecidos, porque a fumaça de gelo seco com fragrância de pêssego deixava qualquer um cego. Então lição número um: não exagere nesta porcaria de fumaça. Aliás, se puder, nem invente moda. Fumaça é coisa do filme Blade Runner. Com uma névoa fedorenta na frente do seu nariz, fica difícil para as pessoas enxergarem como você está linda e maravilhosa, sensacional e vitaminada, tudo de bom e etc, de noiva.

Nada me deixa mais louca do que o garçom com a bandeija de refrigerante dizendo que não tem opção light. Caspite, eu só tomo refrigerante light! Isso me ajuda a caber dentro dos vestidos de casamento e a não desmontar de cima daquele maldito salto alto. Se vocês forem servir refrigerante no casamento, separem pelo menos um terço para versões light.

Bem, a mesa de petiscos estava a poucos metros de mim, mas eu desanimei com a fila. Não quero aqui dizer que as pessoas ali tinham um espírito meio farofeiro, para não parecer preconceituosa, mas parecia que estavam todos querendo tirar a barriga da miséria. Todo mundo desaparecia atrás do prato. E eu esperando a fila diminuir. Quando finalmente chegou a minha vez, e que meu estômago estava grudando nas costas, tamanha a minha fome, rumei em direção aos petiscos. E o que eu encontrei?

Restos mortais de o que parecia ser um peru, três pedacinhos de batata que alguém jogou fora da maionese, uma azeitona perdida, quatro batatas palha, milhares de guardanapos amassados e nada mais. Ah, desculpem, tinham também umas ervilhas perdidas.

Fiquei segurando o meu prato, observando aquela cena, pensando em mastigar a toalha, de ódio. Mas confesso que uma situação mudou totalmente a minha idéia a respeito da fome cavalar que eu sentia naquele momento: eu finalmente pude ver a noiva de perto. E ela estava... BREGA! Ela parecia um suspiro gigante misturada com mãe de santo. Ainda bem que eu não comi, senão eu teria engasgado.

Atenção, noivas: eu sei que esta é uma fantasia de todas as mulheres, mas não vamos exageraaaaaaaaar! Se você é baixinha e gorda, não invente 23094203942 camadas de vestido, mais umas mangas bufantes. E nem 4 km de cauda! Se você é alta e esguia, não precisa colocar um vestido tão apertado que se mova parecendo uma antena de táxi.

O bifê era numa casa até bonita, mas não se realiza casamento em locais que tem degrau pra tudo. Eu vi umas trezentas pessoas tropeçarem. Com salto alto, então, era uma festa.

Eu com fome, chocada por ter visto o estrago noivístico, e nada de comer. Aí, na maior cara de pau, me levantei e fui até a moça do bifê perguntar pela comida. E ela me disse que o jantar sairia em cinco minutos.

Uma hora depois, eu estava esturricada na mesa, pedindo clemência ao Senhor, pois estava à beira da morte por inanição. E nada. Se eu fosse lá perguntar, a resposta era a mesma: mais cinco minutinhos.

Quando deu meia noite (o casamento foi às sete da noite), eu decidi ir embora, antes que eu comesse os guardanapos da mesa. E eu também não aguentava mais respirar gelo seco de pêssego e nem aquela música insuportavelmente alta na orelha. Eu não enxergava e nem ouvia as pessoas. Me senti no Umbral. Na saída, a moça me aborda: "Não vai esperar o jantar? São só mais cinco minutinhos!". "Não, adeus!", respondi. E ela ainda foi educada o suficiente para me oferecer o tradicional bem casado, que dois segundos depois já estava desembrulhado e inteiro enfiado na minha boca. Até hoje não sei como eu consegui engolir aquilo.

A minha noite terminou no Burdog, comendo sanduíche. E rogando praga pra todo mundo!

Ah, só mais uma coisa: se vocês me convidarem para seus respectivos casórios, por favor, sirvam morangos com chocolate de sobremesa, tá? Obrigada!

2 comentários:

Quiron disse...

Casamento é um saco. concordo com vc, e olha que eu não fui nem no meu.

Anônimo disse...

Best regards from NY! » » »