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segunda-feira, julho 24, 2006

Ai, menina, nem te conto...

Houve um tempo em que fofoca era coisa de mulher. Já dizia a piadinha que o homem inventou a notícia, a mulher inventou a fofoca. Mas nos dias de hoje um sexo não fica devendo nada um ao outro. Ambos são mexeriqueiros.

Trabalhar durante muitos anos em uma grande empresa me deu a noção exata do quanto a coisa ganha proporções descontroladas. O café da empresa tinha fofocas e maldades impregnadas na parede.

Diz a lenda que a fofoca é uma espécie de inveja. Discordo. Sempre fui o assunto favorito dos fofoqueiros da empresa, mas não necessariamente porque havia algo em mim que fosse digno de inveja. Até porque não eram as minhas histórias que eram passadas para frente em tom de fofoca, e sim as mentiras a meu respeito. Na verdade, nada na minha vida em interessava aos fofoqueiros. O que eles gostavam mesmo era de inventar. Todos os absurdos do mundo foram ditos sobre minha pessoa.

Se eu ia tomar café com alguém, pronto. Minutos depois apareciam as histórias mais escabrosas a respeito. Tínhamos um caso tórrido. Havíamos sido flagrados fazendo sexo selvagem na sala de reuniões, mas a segurança abafou o caso. No dia seguinte, se eu ia almoçar com um grupo, e neste grupo havia alguém do sexo masculino, isso aumentava o meu índice de piranhagem. Eu transava com os dois juntos. A esposa de algum deles havia dado um flagrante em nós, e ligava todo dia para fazer ameaças. Não havia limites para a imaginação descabida. Beirava o ridículo.

O melhor era quando eu ia ao café ou almoçar com um amigo com quem eu tinha um único e exclusivo assunto: futebol. Só falávamos de futebol. As pessoas presenciavam nossos diálogos sobre jogos, jogadores, arbitragem, mas mesmo assim preferiam dizer por aí que éramos amantes. Ele casou, teve filhos, eu saí da empresa há uns bons anos, nós nunca mais nos falamos e mesmo assim ainda perguntam para ele nos corredores como vai o nosso caso.

Na verdade, quando eu saí da empresa, muitos ficaram impressionados. Como assim eu tinha saído, se eu era amante do diretor? Isso porque, meus caros, eu nunca sequer entrei na sala do diretor. Sequer tínhamos uma relação mais próxima, ainda que fosse de amizade ou profissional, que justificasse o surgimento dos comentários. O negócio era mesmo falar de mim.

Numa festa de final de ano da empresa, eu saí por volta das 23h. Aliás, fui uma das primeiras a ir embora. Mas fiquei sabendo dias depois que eu havia sido vista beijando um cara. Diz a menina que me contou a história que ela ainda tentou me defender. "A Red's? Não tem como. Ela tem namorado", teria dito. "Pois eu tenho certeza do que eu vi", teria retrucado a fofoqueira, que nunca teve nome. Ela tem certeza do que viu? Uau! Eu queria saber que alucinógeno ela usa.

Eu cheguei a ficar encucada, achando que tinha alguma coisa em mim que fazia com que as línguas maldosas coçassem. Mas aí uma amiga minha, que era uma daquelas certinhas tão certinhas que dava vontade de bater, ficou sabendo, do nada, que tinha um caso com um cara casado. Que ela, obviamente, não sabia quem era. Aliás, esqueceram de avisá-la que ela tinha um caso. Eu seria capaz de colocar a mão no fogo por ela, porque eu sabia que não existia a menor chance daquilo ser verdade. Mas o autor da informação, que era meu amigo, era tão veemente em afirmar que sabia do que estava falando que eu só posso imaginar que as pessoas estão cada dia mais loucas.

Eu sabia que não era verdade. Eu acompanhava a rotina da minha amiga. O fofoqueiro não tinha quase nenhum contato com ela. Mas ele "sabia". Todos os fofoqueiros têm mais certeza do que dizem do que a própria pessoa. E eu perdia meu tempo, tentando defendê-la: "Mas Fulano, eu conheço a Fulana muito bem, não é verdade a sua história!". Mas não adiantava. Ele estava irredutível. E então eu percebi que as pessoas estão muito mais empenhadas em viver as mentiras que sirvam para alguma coisa do que encarar as verdades. No caso do fofoqueiro, eu descobri tempos depois que ele estava puto com o fato da minha amiga ter feito comentários maldosos a respeito dele. E a história do homem casado - que era mentira, sem sombra de dúvida - lhe servia para desqualificar o comentário dela.

Outro dia um garoto da empresa que eu trabalhava passou pelo corredor e uma das moças que trabalhava lá, uma gorda azeda, disse para outra menina:

- Ai, esse moço é tão lindo. Certa está a Red's em pegá-lo.
- A Red's teve algo com ele?
- Ô, querida, só você que não percebe, né??

Não, eu nunca tive nada com o moço em questão. Nem teria. Mas a gorda queria pegá-lo e, tendo plena consciência de que isso jamais aconteceria, é mais fácil atribuir a derrota ao fato de o rapaz estar saindo com a "vagabunda" da Red's. Era ela o empecilho para tudo.

Em um trabalho anterior a este, fui surpreendida por um colega de trabalho que espalhou aos quatro cantos que tinha dormido comigo. Não só isso, vejam bem... ele não queria, sabe? Mas eu forcei tanto a barra, que ele resolveu fazer uma caridade. Sabe como é. Eu devo ter aparecido na casa dele de espartilho vermelho, uma rosa na boca e um pote de chantilly. Deve ter sido isso. Engraçado eu não me lembrar se absolutamente nada, não?

E sabe o que é o pior da fofoca? É que desmenti-la não faz o menor efeito. Ninguém acredita, mesmo que você apresente provas concretas. As pessoas não querem saber da verdade, elas querem saber do showzinho.

E sabe o que mais me impressiona? Como as pessoas são neuróticas em ficar cuidando da vida dos outros. Outro dia estava falando com uma menina da ex-empresa, que também saiu de lá, e ela me perguntou se eu ainda tinha contato com alguém de lá. Diante da minha negativa, ela comentou:

- Eu queria saber se o Fulano ainda está de caso com a Fulana.
- Ué, deve estar. Eles têm um caso há mais de dez anos.
- Ah, mas será que...?
- Isso não é problema seu, é?
- Não, mas eu acho um absurdo e...
- Não é problema seu. Você provavelmente já fez várias coisas que outros acharam um absurdo. Cuide da sua vida!

E todo mundo que está lendo esse artigo deve estar pensando "Nossa, eu também odeio fofoca!". Mas garanto que a maioria esmagadora pratica o hábito diuturnamente. E a única coisa que eu penso é: por que gostamos tanto de falar da vida alheia? Queremos achar a vida dos outros mais miserável do que a nossa? Queremos esconder nossas próprias frustrações, passando pra frente informações para diminuir ou humilhar os outros?

Quem sabe um dia eu tenha a resposta.

6 comentários:

Águas da Vida disse...

Ainda nao sei o por que de tanta maldade do ser humano...Por que falar mal de outras pessoas? Realmente vc tem razao, nao precisa ir muito longe, no mundo dos blogueiros é a mesma coisa, vc encontra nos blogs: " Odeio fofocas e inveja!" Essas mesmas pessoas que escrevem isso no perfil sao as que entram em outros blogs anonimamente comentando horrores de vc e do seu blog (risos) O ser humano é predisposto a fazer o mal se nao o fizer morre de tédio.
Big Kiss

Nilson Barcelli disse...

A fofoca será um problema mundial.
Mas estará ligada ao desenvolvimento social e individual. Ou seja, uma pessoa bem formada não será tendencialmente fofoqueira.
Nos países nórdicos, por exemplo, a fofoca é muito mais ténue e centra-se em aspectos menos pessoais. Verifico isso na Alemanha, país onde me encontro actualmente.
Ou seja, há também aqui uma clivagem Norte/Sul, onde a fofoca é mais frequente à medida que se vai caminhando para Sul.
Na empresa onde trabalho há fofocas exactamente iguais às que focou, mas não são muito frequentes.
Bem, o seu tema dava um "case study" para psicólogos e sociólogos, coisa que eu não sou...
Beijinhos.

Milla Pereira disse...

Oi, amiga
Estou passando pra lhe desejar boa sorte no concurso GI.
Uma ótima semana pra vc.
Beijos
Milla Pereira

Hilda disse...

Seguinte ...desde de criança adotei um lema: falem mal mas falem de mim ... e fim, não dou nem tchun para o que falem ou pensem sobre mim!

Ahh ... mas me excluo da classe de fofoqueiros, pelo menos me esforço por isso, mas ... mas ... as vezes uma fofoquinha até que é divertida!

Fatima Gama disse...

Eu acho que fofoca é coisa pra quem não tem o que fazer, meu ritmo acelerado não tem espaço para tais atos que não acrescentam nada na minha vida, é como ver televisão, só vejo aquilo que realmente valha apenas, acho meu tempo precioso demais para perdê-lo com coisas deste tipo afinal tempo é dinheiro. Beijos Red's

Caritas souzza disse...

Olá! Passando e agradecendo suas amáveis palavras. Desejo tbm uma linda semana repleta de êxitos; paz; saúde e sorrisos felizes. Bjos doces em seu coração.